Xavier, português residente na Suíça – entrevista do seu GR20 em português

Olá Xavier, podes-te apresentar?

Olá GR20 blog,

Chamo-me Xavier e tenho 32 anos, moro no cantão do Valais, na Suíça, sou português e emigrei ao encontro de um sonho, morar nos Alpes, só com 21 anos é que desenvolvi o gosto pela montanha, quando morei próximo do único parque nacional português, o Parque Nacional da Peneda-Gerês, onde caminhei bastante. Em 2014 fiz o Tour do Monte Branco e tudo mudou, tinha que vir morar para os Alpes!

Xavier e sua esposa
Xavier e sua esposa

Em 2014 emigrei para a Suíça, troquei o fato e gravata por roupa das obras, antes era bancário e presentemente trabalho na construção civil.

Tenho um blog www.portugal-nature.blogspot.com e 2 canais do Youtube, mais de 600 sugestões de caminhadas que tenho feito por aí, sobretudo na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês(não balizados) em Portugal e no cantão do Valais, na Suíça.

Pratico também algum alpinismo, tive em 3 picos 4000m no cantão do Valais e nuns 70 picos com mais de 3000m. De inverno pratico o ski de rando.

Já tinhas saído para fazer uma caminhada?

Tenho por hábito caminhar bastante, entre percursos de vários dias estão, o Tour do Monte Branco, Tour des Muverans, Tour des Dents du Midi, secção Lescun – Gavarnie da Alta Ruta Pirenaica…

Podes-nos aconselhar algumas caminhadas a fazer na tua região?

Tour des Dents du Midi (4dias) com subida à Haute Cime (3257m) e Tour des Muverans(3/4 dias), caminhadas de um dia são demasiadas para citar só algumas!

Sobre o GR20, quando é que o fez? Caminhou sozinho ou com outras pessoas? Qual o percurso feito no GR20? Onde começou? Onde terminou?

No GR20 caminhei, como habitualmente, com a minha esposa, começámos no dia 16 Julho 2017 às 10h30m e acabámos no dia 24 Julho 2017 ao meio dia, de Calenzana a Conca.

O GR20 através da montanha da Córsega
O GR20 através da montanha da Córsega

Porquê o GR20 ? Quando decidiu fazer o GR20? Alguma preparação específica?

Há vários anos que tínhamos em mente fazer o GR20, decidimos que o iríamos fazer duas semanas antes de partir para a Córsega, no início de Julho, é sabido que é um percurso duro e extremamente bonito, foi isso que nos levou a percorrê-lo.

Não fizemos qualquer preparação específica para o GR20, o simples facto de caminhar várias vezes por mês com desníveis positivos na ordem dos 2000m faz com que estejamos em forma o ano todo, isto no plano físico, no plano mental consideramo-nos fortes, vamos evoluindo com a experiência.

Ok, não nos preparámos para caminhar com sacos de 14/19kg, mas cada vez que uso um saco pesado é um bom sinal, é sinal que estou de férias e que vou caminhar vários dias, é assim que vejo as coisas, é duro mas é bom!

Que equipamento levou?

Levei um saco Deuter 60+15lt, saco cama, tenda, pequeno fogão, tachos, 2,5lt de água, comida para vários dias, dezenas de barras energéticas e várias refeições leofilizadas, uma muda de roupa Gore tex, um casaco para o frio, 2 calções, leggins, entre outras coisas.

Estávamos tão bem equipados que nunca comemos num refúgio.

Impressões positivas:

O percurso encontra-se bem marcado em toda a extensão, só tivemos alguma hesitação numa parte entre o refúgio Tighjettu e o refúgio Ciottulu di i Mori, precisamente na zona de Bergeries d’u Vallone, onde voltarei nos aspectos negativos.

Diria que a grande impressão positiva foi a variedade e a beleza ao longo de todo o percurso, fantástico, é uma rota lindíssima.

Marca vermelha e branca do GR20
Marca vermelha e branca do GR20

Impressões negativas:

A falta de tacto dos guardas de alguns refúgios.

Ao passar em Bergeries d’u Vallone perguntámos ao « guarda » por água, respondeu-nos com toda a arrogância a dizer que tinha água mas era para vender, confesso que fiquei chocado com a arrogância dessa pessoa, mas não tendo uma nascente perto foi a forma como respondeu!

Outra coisa que eu acho extremamente negativo é a quantidade de tendas verdes que ocupam os melhores sítios, estamos a falar de tendas quechua que se montam em 2 segundos, isso mostra bem a postura que os guardas tem para com os caminheiros, em vários dias chegámos ao final da tarde aos refúgios e tínhamos que « lutar » para encontrar um sítio, e a saber que haviam dezenas dessas tendas verdes VAZIAS com bons sítios, ficava maluco. Os meus parabéns ao refúgio Prati, único por onde passei onde não havia uma única tenda verde, bravo!

É pena não haver uma etapa adicional entre Conca e uma praia, um percurso como este merecia acabar num cenário assim! Nos últimos dias sonhávamos com aquele momento em que largaríamos as malas e correríamos rumo ao mar, mas tal não aconteceu, infelizmente o lugar onde o mini bus nos deixa em Porto Vechhio não é perto de uma praia.

No albergue do Col de Bavella fiquei estupefacto com o que me foi dito, podia dormir ali mas éramos obrigados a jantar no restaurante do albergue, não podíamos ir jantar à pizzaria ao lado, nunca vi regras de turismo tão bizarras…

Qual a impressão mais positiva? E a mais negativa?

Positiva, a beleza e variedade de todo o percurso, negativa, o excesso de tendas quechua 2 segundos!

Qual a etapa favorita e o refúgio favorito? Qual a melhor experiência?

A etapa Asco-Tighjettu-Ciottulu di i Mori que fizemos no terceiro dia, a subida a partir de Asco é muito bonita no meio daquele caos granítico, um pouco técnica como tanto gostamos, a vista desde Pointe des Eboulis, a magnífica descida para Tighjettu e a variedade da etapa seguinte terminando com um belo por do sol e simpatia do refúgio Ciottulu di i Mori, tirando a situação vivida nas Bergeries d’u Vallone foi um dia maravilhoso..

Final do dia na gr20
Final do dia na gr20

Se fizesses novamente o GR20 o que mudavas?

Caso o saco ultrapasse os 15kg levaria sapatilhas de trekking e não de trail, mas isso também depende da pessoa.

Que conselhos darias a alguém que está a pensar fazer o GR20?

Para quem quer fazer o GR20 em autonomia, não é necessário levar comida para mais que 2 dias, é possível reabastecer quase todos os dias.

Nas primeiras etapas existem secções técnicas, convém ter alguma experiência ou estar preparado para.

Beber muito, sempre que possível, o calor é muito(nesta altura do ano, Julho)!

árvore thunderstruck no caminho
árvore thunderstruck no caminho

Quem quiser andar a um bom ritmo e dobrar etapas é essencial começar a caminhar por volta das 6, entre as 6 e as 9 é a melhor altura para caminhar.

Para quem leva um saco com mais de 15kg não aconselho sapatilhas de trail, cheguei a Conca com os pés em compota, muito peso para pouco amortecimento.

Gostarias de acrescentar algo?

La Corse est Belle !!

Muito obrigado feedback Xavier Pourton! De fato, o GR20 chegando na praia, seria bom, mas o GR20 é uma montanha montanhosa. Mas por outro lado, existe Mare e monti e também Mare a mare 🙂 Até breve!

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